Um líder de todas as raças

Um líder de todas as raças

Nº EDIÇÃO: 843 | 06.DEZ.13 – 20:30 | Atualizado em 09.Dez.13 – 13:13

Mandela pacificou um país dividido, criou prosperidade e transformou a África do Sul numa voz relevante no mundo, assumindo seu papel econômico entre os países emergentes

por Denize Bacoccina

Quando foi libertado, em 1990, depois de 27 anos na prisão da ilha de Robben, na Cidade do Cabo, a primeira declaração do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela foi de agradecimento aos que se juntaram a ele na luta contra o apartheid, o regime de segregação racial que durante 46 anos dividiu o país, oficialmente, entre brancos e negros. Em seguida, ele pediu que todos, independentemente da cor da pele, se juntassem na construção de uma nova África do Sul. A conciliação de um país que passou metade do século 20 dividido em dois, com a maioria negra sem direito a nada, oprimida pela minoria branca, é o grande legado de Mandela.

Ninguém, no século 20, teve mais influência do que ele. Era chamado de terrorista pelos que, por conveniência e em plena guerra fria, apoiavam o regime racista, como os governos americano e britânico. Mas era amado por um número muito maior, como exemplo de luta contra a divisão racial. Na quinta-feira 5, logo após a divulgação da sua morte, aos 95 anos, em Johannesburgo, o presidente americano, Barack Obama, deu um depoimento pessoal. “Não consigo imaginar minha vida sem o exemplo de Mandela”, afirmou. Da prisão, Mandela inspirou milhões de jovens, como Obama, que foram às ruas no mundo todo protestar contra um regime que deixava na miséria e sem direitos civis e políticos 80% da população.
Ao chegar ao poder, Mandela se esforçou em mostrar ao mundo que a África do Sul tinha mudado. Dedicou-se a outra tarefa: a de criar prosperidade e empregos para seus compatriotas. Abandonou o discurso anticapitalista do seu partido, o Congresso Nacional Africano (CNA), e os planos de nacionalizar bancos, minas e outras empresas. Em vez disso, reafirmou aos empresários que eles teriam seus investimentos respeitados e lançou programas para combater a pobreza e o analfabetismo. No governo, ajudou a transformar a África do Sul numa voz relevante no mundo, assumindo seu pa­­pel entre os emergentes.
As relações com o Brasil, rompidas durante o apartheid, foram retomadas após a eleição. Os dois países participam, junto com a Índia, do Ibas, um grupo de articulação política para aprofundar as relações entre os três países, as três grandes democracias multiétnicas do Hemisfério Sul. Em 2011, a África do Sul se integrou ao BRIC, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China. A economia melhorou. O PIB per capita dobrou entre 1994 e 2012 e o PIB do país triplicou. Parte dessa melhora foi consequência do fim das sanções econômicas e da retomada das relações comerciais com o resto do mundo. Mas o desemprego, uma medida mais pessoal do bem-estar econômico, voltou a aumentar e hoje aflige um quarto dos sul-africanos.
Como sabemos no Brasil, a igualdade racial garantida na lei é fundamental, mas não é suficiente. Madiba, nome tribal pelo qual é chamado na África do Sul, fez sua parte. Lutou pela democracia e conseguiu direitos iguais para todos. E deixou ainda outro legado. Mandela sempre aparecia com o braço estendido e o punho cerrado em sinal de luta, e quase sempre sorrindo. Com sua vida, mostrou que é possível lutar e manter o coração leve. Como ele disse, ao sair da prisão: “Quando eu saí pela porta que levaria à liberdade, eu sabia que se não deixasse minha amargura e meu ódio para trás, eu continuaria na prisão.” Mandela não apenas se libertou, mas ajudou a construir um mundo mais livre para todos nós.

Share this post


Watch Dragon ball super